Dublagens e Redublagens.

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 “NO BRASIL A DUBLAGEM VIRA CLÁSSICO JUNTO COM O FILME.”

(Nelson Machado)

Quando o assunto é versão brasileira, um dos temas mais discutidos é a chamada redublagem, ou seja, quando um filme, série, desenho animado ou programa recebe uma nova dublagem, que acaba por ser bem diferente da original, tanto na escalação do elenco de dubladores, quanto nas interpretações e no texto. Isso provoca a maioria das queixas de fãs de dublagem, porque “aquela versão clássica, que eu adorava assistir” é substituída e às vezes, as pessoas nem sabem por que.

O caso é que as redublagens são feitas por diferentes motivos e mesmo que isso provoque a ira dos fãs, em alguns casos, é algo totalmente necessário a se fazer, para que a obra possa ser apreciada por novas gerações. Ajustar a qualidade da imagem e do som às novas tecnologias e mídias é talvez o fator mais determinante para que uma nova versão dublada seja feita. Mas também há casos em que o “dono da obra” exige uma nova dublagem, por considerar mais válida uma versão mais atualizada do trabalho, questões contratuais com estúdios e profissionais, substituição de dubladores que não aceitam redublar ou em casos de falecimento e mudanças nas “casas” de dublagem, entre outros fatores.

Quando a gente ouve por aí que “Nunca deveriam ter redublado aquele filme!” ou “Essa nova dublagem estragou a original!”, é preciso saber o real motivo de isso ter acontecido. Como fã de dublagem, defendo mais do que tudo uma versão brasileira de qualidade, que seja feita por profissionais capazes e talentosos e que respeite tanto a obra original, quanto aos seus admiradores e consumidores. Diante disso, este artigo tem por objetivo apresentar e discutir com você leitor as diferentes características das redublagens e como elas devem acontecer.

Primeiramente, quando alguém se queixa ou comenta sobre uma redublagem é porque geralmente tem uma dublagem original na memória e não concorda que essa seja substituída por qualquer outra. Em casos de pessoas como eu, que estão “na casa dos trinta”, a maioria das dublagens clássicas e únicas são aquelas dos filmes, séries e desenhos animados dos anos 80 e 90, quando éramos crianças e adolescentes. Casos como “De volta para o futuro”, “Curtindo a vida adoidado” e “Jornada nas estrelas”, fazem com que tenhamos muitas e boas lembranças de tardes na frente da televisão assistindo a esses filmes.

Star Trek

No caso desses e de diversos outros exemplos, o fato é que as dublagens eram encomendadas aos estúdios pelas emissoras de televisão que os exibiriam, já que naquela época, o mercado de home vídeo ainda dava seus primeiros passos e a maioria das fitas em VHS eram lançadas apenas em suas versões originais com o recurso de legendas eletrônicas. Quando você queria assistir a um filme dublado, deveria ver na televisão.

Por isso, estúdios como a Herbert Richers, VTI e Maga, entre tantos outros, sob contrato com emissoras como a Rede Globo e SBT, por exemplo, produziam dublagens que se tornariam verdadeiros marcos na história dessa arte e contando com os melhores profissionais, além de jovens promessas que viriam a se tornar lendas vivas. Assistíamos tantas vezes esses programas, que suas dublagens ficaram “gravadas” em nossas mentes e corações e ainda hoje são lembradas em diversos momentos de nossas vidas nerds.

Muitos dos nossos “filmes de coração” foram lançados anos depois em mídias de alta tecnologia, como o DVD (que hoje já não é tão altamente tecnológico assim), ganhando novas versões dubladas, proporcionando aos espectadores a opção de escolher a forma como assistir. As mídias modernas, além da qualidade incrivelmente maior que as boas e velhas fitas propiciam esse poder ao espectador, o que aumentou o mercado de dublagem no Brasil em meados dos anos 90 e que se mantém até os dias de hoje.

Alguns casos de lançamentos, como “Gremlins”, “Conan – O bárbaro” e “Jonny Quest – A série original”, este último em DVD e os demais em Blu-Ray, as versões dubladas originais foram mantidas e mesmo que a qualidade sonora nem sempre esteja em conformidade com as novas tecnologias de áudio, permitem que os “saudosistas” curtam seus filmes favoritos como antigamente (com uma imagem muito melhor, diga-se de passagem).

Porém em filmes como “Guerra nas estrelas” e o já citado “De volta para o futuro”, novas dublagens foram feitas, com mais qualidade sonora e excelentes interpretações. Mas convenhamos que ao menos uma faixa do áudio original poderia ser mantida, caso o material não estivesse perdido. O grande Eleu Salvador, que deu voz ao Doutor Emmet Brown (Christopher Lloyd) na clássica trilogia, infelizmente havia falecido e um novo dublador foi chamado, no caso, o também excelente Mauro Ramos. Os detentores dos direitos do filme simplesmente optaram por uma nova versão.

"Eu acho que vocês ainda não estão preparados pra isso. Mas os seus filhos vão adorar."

“Eu acho que vocês ainda não estão preparados pra isso. Mas os seus filhos vão adorar.”

Uma de minhas dubladoras favoritas, Miriam Ficher, que participou dessa nova versão da trilogia, em conversa comigo, disse que os fãs que viram o filme original gostam mais da primeira dublagem e que aqueles que assistirem pela primeira vez, gostarão da nova dublagem e também se queixarão caso uma nova versão seja feita. Concordo com ela totalmente, afinal, o que se vê pela primeira vez fica marcado na sua história. No caso desses filmes, gosto das duas dublagens, mas a primeira é aquela que sempre virá na frente na cabeça momentos antes de iniciar o filme para mais uma exibição.

A dublagem original poderia estar nessas novas versões, dessa forma, tanto os fãs clássicos como os novos teriam uma experiência maior ao assistirem ou reassistirem a essas obras tão importantes na história do cinema e da cultura popular em geral.

Enfim, temos casos em que a dublagem original é mantida, mesmo em novos lançamentos. E temos casos em que a dublagem original sequer é cogitada. Sem querer impor qualquer opinião, não é melhor manter a dublagem original? Garanto que isso é um excelente atrativo para futuras vendas. O mercado se faz com consumidores, que antes de serem consumidores, são fãs.

Referi-me anteriormente a casos em que determinado dublador nos deixa. Newton da Matta é considerado por muitos fãs e especialistas como um dos maiores dubladores de todos os tempos, com trabalhos fantásticos como Lion’O de “Thundercats” e diversos filmes de Bruce Willis e Dustin Hoffman. A chamada “voz de Bruce Willis” infelizmente nos deixou em 2006 e desde então, outros profissionais vem dublando os filmes do conhecido ator. O mais importante é que o trabalho de Newton foi mantido na maioria dos casos, tamanha a qualidade e identificação que o dublador obteve. Como assistir aos clássicos filmes “Duro de matar” sem a interpretação cheia de ironia que ele conseguiu alcançar? Impossível.

Quando o dublador falece em meio a uma série ou depois de diversos personagens de um mesmo ator, de fato, há a necessidade de substituição ou mesmo em casos como os novos programas de Roberto Goméz Bolaños, o criador do Chaves, que chegaram ao Brasil nos anos 90. Como Marcelo Gastaldi, o dublador original do ator, havia falecido, outros foram chamados, sendo que Tatá Guarnieri o dublou em produções mais recentes. Mas a voz de Gastaldi continua nas exibições da série original, respeitando o seu legado.

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Grandes artistas que fizeram trabalhos memoráveis.

Redublagens não são necessárias nesses casos, a meu ver, já que são representações de respeito e devoção por seus profissionais. E quanto mais as dublagens originais forem mantidas e disponibilizadas para os fãs, novos e clássicos, mesmo havendo redublagens, melhor para os distribuidores e produtores, pois saberemos que o mercado acima de tudo, valoriza a arte e o trabalho (ainda creio que isso acontecerá um dia).

Redublar não significa esquecer ou destruir o que um dia foi feito de forma magistral. O que já foi feito um dia, com a qualidade e dedicação de tantos profissionais (dubladores, diretores, técnicos de som, tradutores, etc) não pode simplesmente ser jogado fora e o que está sendo feito hoje em dia deve fazer parte da incrível e maravilhosa história da versão brasileira. Nossa dublagem é a melhor do mundo e tudo o que foi construído é parte de um legado que jamais será apagado de nossas memórias e corações.

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21 comentários sobre “Dublagens e Redublagens.

  1. É decepcionante ver (ouvir) o que ocorreu com a série do Indiana Jones, uma verdadeira porcaria, deram para o Indiana Jones a voz que dubla o Brendan Fraser, ele grita muito.
    Pergunto: Tem com adquirir a série Indiana Jones com o dublador antigo? É verdade que nos filmes bluray existem as duas versões dubladas 2.0 a antiga e 5.1 a antiga?

    • De fato, a coleção em Blu Ray de Indiana Jones possui as duas dublagens: a primeira com Júlio César (que também dublou o Robocop) e a nova com Guilherme Briggs, feita para a exibição em 5.1 no Telecine. Edições mais antigss em DVD possuem a dublagem original e creio que podem ser encontradas para venda.

  2. Adorei o texto! mas no final, onde você diz “Nossa dublagem é a melhor do mundo”, não condiz com a realidade pois a dublagem brasileira já perdeu este posto a algum tempo. hoje em dia a melhor dublagem no mundo é a italiana.

    • Agradeço sua participação. De fato, hoje em dia nosso país perdeu um pouco a qualidade devido aos muitos estúdios, vários de baixa qualidade, e muitos não profissionais atuando na dublagem.
      Mas nossos valores ainda mantém nossa qualidade. Continue participando.

    • Também já escutei há muito tempo que a nossa dublagem era a melhor do mundo, bem antes da internet ser popularizada. Hoje algumas dublagens são tão ruins que parecem até falta de respeito com quem está assistindo. Por exemplo, a dublagem da série Mad Men no Netflix é péssima. Não dá pra assistir um episódio dublado sem ficar meio com dor de cabeça.

      Mas com relação ao assunto da postagem, redublagem, no geral não gosto das dublagens novas. Sinto que elas só tem alguma qualidade, na minha opinião leiga, quando há grande investimento no lançamento de uma continuação ou regravação, como no caso do Guerra nas Estrelas (sim, tenho trinta e poucos).

      Não é questão de saudosismo, algumas dublagens antigas realmente eram melhores, apesar de conterem erros de tradução evidentes. Por exemplo, no “De Volta Para o Futuro” era muito engraçado o uso literal do termo “Franguinho” para provocar o McFly.

      Para concluir (eu sei que estou sendo chato), no mês passado li o “Parque dos Dinossauros”. Todas as vozes que vieram aos meus ouvidos durante a leitura foram as da primeira dublagem. Quando terminei o livro, abri o Netflix para assistir o filme, mas logo desisti. Adivinhem o porquê.

      • Estou voltando para corrigir o que disse sobre a dublagem do Jurassic Park. A que está presente atualmente nos serviços de streaming é da Álamo (para VHS), anterior à da Herbert Richers (para TV aberta). Agora vejo que, na verdade, ambas são boas.

  3. A única justificativa plausível para não se preservar a “dublagem clássica” ou “original” são razões contratuais, as demais, não encontram coerência. Até porque, há meios de tratar o áudio. O argumento de que a redublagem iria agradar novas gerações não tem fundamento algum, pois a maioria preferem ver remakes e filmes atuais a assistir uma película dos anos 80,90. Não estou generalizando todavia essa é a realidade. Nossa dublagem de fato foi a melhor do mundo, mas hoje em dia não esta mais nesse patamar. 😉
    Ps: Tenho 37 anos e vi todos os filmes da nossa geração com dublagem clássica e vi as redublagens. Posso dizer com segurança o ditado popular mais verdadeiro que existe é: “A primeira impressão é a que fica.”

    • Obrigado por participar, Pedro. Mas oermita-me discordar de alguns pontos contidos no seu comentário. As razões sobre redublagem apresentadas no artigo possuem coerência e fundamento, diante de minhas pesquisas sobre o tema.
      É claro que existem meios de se tratar o áudio das produções, mas nem sempre, os clientes têm vontade de fazê-lo, na maioria dos casos, por ser um processo mais custoso do que fazer uma nova versão dublada.
      Uma nova versão dublada agrada a quem vê o filme pela primeirá vez, mesmo que seja uma produção de dez ou vinte anos atrás. Isso de dizer que as novas gerações preferem apenas remakes é que não tem fundamento algum. As crianças de hoje, por acaso, não gostam de “Chaves” ou de filmes como “A fantástica fábrica de chocolates”?
      E finalmente, sua última frase, com a citação de que “a primeira impressão é a que fica” acaba por anular todos os seus argumentos anteriores, já que o que se assiste pela primeira vez, seja hoje, seja no passado, fica marcado em nossa mente.

  4. Concordo com o Pedro… Já que quando o filme passa por uma melhoria na qualidade de imagem e som ele ainda mantem a voz do ator/atriz em inglês. . A qual só passa por ajustes mas se mantem a original … Pq não fazer isso com a dublagem clássica…?

    • Apesar dos arquivos de áudio e vídeo serem separados, o que permite uma restauração própria a cada um, por que não manter os originais? E mais, se restauram discos de música antigos, aprimorando a sua qualidade, imagino que com as dublagens o mesmo possa ser feito. O problema é que os “donos do filme” acham mais barato redublarem do que restaurarem. Obrigado pela sua participação Clint.

  5. Encontrei essa postagem através de uma busca sobre dublagem.
    Acredito que a dublagem brasileira seja uma das melhores do mundo, se não a melhor.
    Enfim.
    É interessante a parte onde fala do Bruce Willis, porque, quando fui assistir Duro de Matar percebi que a dublagem era diferente e preferi assistir à versão legendada, apesar de ter problema de vista e não conseguir ler bem as legendas, por isso prefiro dublados.
    Pesquisei e, para minha surpresa e tristeza, descobri que o dublador havia falecido. Senti um vazio, sério mesmo, porque eu me acostumei com a voz desde os tempos de A Gata e o Rato.
    Mas fazer o quê? É a vida.
    Eu, particularmente, acho que a dublagem brasileira não deixa nada a desejar e acho que é uma das melhores que existem. A dublagem de O Hobbit, por exemplo, é sensacional, sem mais adjetivos, de tão excelente. Dentre muitos, é claro.
    Vejo pelos americanos, que não gostam de filmes em outra língua e sempre fazem remake de filmes estrangeiros “americanizando-os”.
    Parabenizo aos dubladores brasileiros e fico feliz com pessoas que valorizam a nossa língua.
    Grata. Viviane.

  6. Assistindo Indiana Jones no Netflix fiquei decepcionado com a dublagem atual,principalmente do garotinho Shot e resolvi pesquisar sobre o assunto,encontrei esse fantástico post sobre dublagem,Parabéns realmente esclarecedor e rico e faz leigos como eu entender um pouco mais sobre o assunto. Também achei estranho a dublagem do De volta para o futuro,acredito que como um apreciador dos clássicos da sessão da tarde e filmes dos anos 80 me decepcionarei com qualquer mudança no audio dos filmes. Parabéns pelo conteúdo.

  7. A verdade é que, com uma infinidade de estúdios que pipocaram em meados dos anos 2000 e hoje existem aos milhares por aí, por mais que se tenha ganhado em QUALIDADE DE SOM, se perdeu ‘abismalmente’ em qualidade de interpretações e de vozes mesmo. Hoje temos vozes novas (sem contar dubladores já experientes e que ainda dublam em boa quantidade, como Marcio Seixas e Leonardo Camilo, por exemplo) como as do Ézio Ramos, Eleu Salvador, Darcy Pedrosa, Paulo Flores, André Filho etc???? As novas vozes, na grande maioria das vezes, passam quase despercebidas de tão comuns. Pecam muito em interpretação, talvez por ter uma formação mais sólida em teatro como muito desses mais antigos. Só sei que a melhor solução seria manter ao máxima a dublagem original em novas mídias como BlueRay e TV, ainda que realizassem a redublagem, mas que mantivessem a primeira como opção, como ocorreu nos DVDs e BlueRay das sérias Alien e Indiana Jones. É uma justiça com as vozes e interpretações clássicas, com os estúdios, e acima de tudo com NÓS QUE SOMOS FÃS E CONSUMIDORES DESSES PRODUTOS. Só pra encerrar, até me animei pra assistir “O primeiro ano do resto de nossas vidas”, filme que assistia muito no fim dos anos 80 e na década de 90. Fui ver no TCM, canal que não somente presa pela memória desses filmes um pouco mais antigos, como presa pelas dublagens originais. Mas ao ouvir uma redublagem me deu um desgosto tão profundo que não aguentei ver 2 minutos. Triste.

  8. Excelente matéria e bastante elucidativa. Há um outro aspecto até mais irritante e que acontece com certa frequência, que é a troca da equipe de dubladores DURANTE o curso do trabalho. Obviamente, acontece nas séries. Exemplos recentes são Lost (que trocou todas as vozes a partir da 3ª temporada) e 24 horas (que trocou o dublador de Jack Bauer talvez também na 3ª) e, claro, Os Simpsons. Ressaltando o excelente trabalho do pessoal que entrou, é preciso dizer que, como bem sabemos, o espectador leva tempo criando um vínculo entre voz e ator e, depois que consegue, de repente mudam tudo. É bastante irritante, pra dizer o mínimo.

    Aqui mesmo, na matéria, uma das imagens ilustra esse fato. Jornada nas Estrelas (ou Star Trek como querem agora) já estava sendo redublada por uma turma de primeira (Márcio Seixas, Garcia Jr. etc.) quando, no meio da 2ª temporada, trocaram todo mundo! Pombas! Tudo bem que a galera que entrou tava no mesmo nível, mas, caramba. A série é antiga, tem menos de 80 episódios em 3 temporadas. Não é possível que não consigam manter o mesmo time pra concluir um trabalho dessa importância.

    Enfim, tem muita coisa que não sabemos…

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